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24 de fevereiro de 2012

Duas correntes


Duas correntes se manifestam hoje na Tradição. Uns querem um acordo. Outros não.

Uns dizem:

– É preciso entrar na Igreja.

Outros respondem:

– Quem já está dentro não precisa entrar.

– Mas nós precisamos da legalidade – retrucam os primeiros.

– Foi assim que caíram o Barroux, Campos e tantos outros – respondem os segundos.

– Mas nós não cairemos, não é possível que Deus permita que tal coisa aconteça.

– “Quem está de pé, cuidado para que não caia” – adverte São Paulo (I Cor. 10, 12).

As mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Se Bento XVI beatifica quem excomungou Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer, se Bento XVI celebra o jubileu de prata da reunião de Assis, se Bento XVI defende o Concílio Vaticano II como sendo a Tradição, então os males que vimos no pontificado de João Paulo II se repetirão no de Bento XVI.

Enquanto a Roma liberal dominar a Roma eterna; enquanto o maior desastre da história da Igreja desde a sua fundação, ou seja, o Concílio Vaticano II, fôr a referência privilegiada dos Bispos, dos Cardeais e do Santo Padre, não haverá solução.

– Mas Roma está mudando – retomam os defensores dos acordos.

– Mudando em quê?

– Roma liberou a missa e retirou as excomunhões – respondem os primeiros.

– Mas de que serve liberar a missa de sempre se Roma deixa coexistir as duas missas? Lemos no Antigo Testamento que Abraão expulsou a escrava Agar e Ismael seu filho para que Isaac não ficasse com o filho da escrava, pois diz São Paulo: “Aquele que tinha nascido segundo a carne perseguia o que tinha nascido segundo o espírito”, e São Paulo acrescenta: “assim também agora” (Gal. V, 29). Abraão fez isto atendendo, a contragosto, a um pedido de Sara, e Deus deu razão à Sara, pois a que é livre não devia ser equiparada à escrava. A missa nova é Agar. Ela não tem direitos. Ela tem de ser suprimida. Quanto ao levantamento das excomunhões, de que serve retirá-las se se beatifica quem as fulminou? Apesar de certo benefício jurídico desses dois atos, “liberação” da missa (que nunca fora proibida) e “levantamento” das excomunhões (que nunca tiveram validade), o benefício espiritual de cada um deles ficou bem comprometido pelo contexto contraditório em que foram realizados. Ou é João Paulo II que tem razão, ou é Dom Lefebvre. Não se pode exaltar João Paulo II e retirar, se é que retiraram, a excomunhão de Dom Lefebvre. Os dois não podem ter razão ao mesmo tempo. Isso é puro modernismo. Quanto à missa, dá-se o mesmo. Se se permitem as duas, o resultado é a contradição. É um princípio de dissolução. É um princípio de corrupção da fé católica.

– Mas – dirão os acordista – Roma não pode pôr fim a esta crise de uma só vez. As coisas humanas não se resolvem de um só golpe. Para pôr ordem no caos atual, será necessário muito tempo.

– Sim. Não há a menor dúvida. Mas o começo desta ordem só virá quando o Papa tiver a intenção de instaurar esta ordem. E aqui uma questão se impõe. Bento XVI deseja pôr ordem na Igreja?

– Certamente – dirão alguns dentre os acordistas.

– Nada é menos certo do que isso – respondemos nós. – Pôr ordem na Igreja não é imitar Napoleão, que estruturou a Revolução e, desta forma, a perpetuou. Para semear a desordem, é necessário um pouco de ordem, dizia Corção. Bento XVI é um homem de ordem, mas a ordem que ele deseja não é a trazida pela Realeza Social de Nosso Senhor Jesus Cristo: para ele “o problema do Concílio foi assimilar dois séculos de cultura liberal”.[1] É isto o que Bento XVI dá sinais de querer fazer com sua hermenêutica da continuidade.

– Mas – insistem os outros – aos poucos Bento XVI tomará cada vez mais a defesa da Tradição. Ele precisa de nós. Ele quer a nossa ajuda para combater o modernismo.

– Campos também falava assim. Como Bento XVI pode querer nossa ajuda para combater o modernismo se ele mesmo é modernista? Ele pode combater certos modernistas, mas combater o modernismo, ele só poderá fazê-lo depois de deixar de ser modernista.

– Mas dessa forma não se chegará nunca a uma solução.

– Não sei. O que sei é que Santo Anselmo dizia que Deus não ama nada tanto neste mundo como a liberdade da sua Igreja. Pôr a Tradição sob a autoridade de homens que não professam a integridade da Fé católica é fazer exatamente o contrário do que Deus mais ama.

– Mas nesse caso o senhor está identificando a Tradição e a Igreja?

– Perfeitamente, já que a Igreja é essencialmente tradicional e não pode deixar de sê-lo.[2]

– Mas então quem é Bento XVI, se ele não é tradicionalista?

– É um Papa liberal que escraviza a Igreja. Pôr-se sob sua autoridade sem que ele renegue os erros por ele professados é pôr Sara sob o jugo de Agar, Isaac sob o jugo de Ismael. Ora, nós somos filhos da livre e não da escrava cujo filho é Vaticano II, escravo de dois séculos de cultura liberal.

– Qual é então a solução?

– A conversão do Papa.

– Mas como obtê-la?

– Rezando e combatendo. Deus não nos pede a vitória, mas sim o combate. Como dizia Santa Joana d’Arc, “os soldados batalharão e Deus dará a vitória”, pelo Imaculado Coração de Maria. Eis aí toda a nossa esperança.

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[1] Do Liberalismo à Apostasia, Ed. Permanência, pág. 10.
[2] Evidentemente a questão é complexa. O título do livro de Ploncard d’Assac a resume de certa forma: A Igreja ocupada. Uma conferência de Dom Lefebvre sobre as notas da Igreja, feita em 1988 para responder aos argumentos acordistas de Dom Gérard, lançam também uma luz penetrante sobre a questão.

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¹ - Extraído do site "Apostolado Tradição em Foco" (acessado em 23 fev 2012) em: <http://www.tradicaoemfoco.com/2012/02/duas-correntes-por-dom-tomas-de-aquino.html>.

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